
“Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos” - salutar recomendação do polêmico e inteligente Nelson Rodrigues. Diria que um desses livros totais é Nascimento da Era Caórdica, um livro de Dee Hock publicado em 1999 que contém uma história de vida onde ele desenvolve novos conceitos de organização que transcendem os limites da Administração Clássica e, ao mesmo tempo, destaca a relevância desta mudança de paradigma para o futuro da nossa civilização. Para aqueles que sentirem o desejo de aprofundar e de integrar-se a esta odisséia, sugiro que ponham de lado suas crenças, conceitos e idéias e mergulhem na história de vida de Dee Hock lendo o livro Nascimento da Era Caórdica. Trata-se de um atraente romance autobiográfico escrito por um visionário extremamente consciente de que podemos e devemos criar o tipo de organização que um mundo em que se possa viver exige.
Seguem adiante algumas palavras contidas nesta fascinante obra escrita pelo visionário Dee Hock. Trata-se de um trecho que sintetiza seu pensamento sobre o futuro das nossas organizações, da humanidade e do nosso planeta, a partir de idéias que pôs em prática durante sua vida:
“ Aristóteles disse que, para uma comunidade funcionar direito, todos os cidadãos devem estar ao alcance do som de uma única voz. Ele não imaginava que a comunicação moderna transformaria o mundo numa única aldeia composta de inúmeras aldeias em centenas de escalas – comunidades de quatro ou cinco e comunidades de bilhões – uma comunidade de trilhões de formas de vida, todas ao alcance do som de uma única voz.
Assim como por direito de nascença somos cidadãos de uma cidade, província ou nação, somos também cidadãos do mundo, pois com certeza nascemos nele também. Além disso, por direito de escolha, somos cidadãos de corporações, igrejas e inúmeras outras organizações. Se não desenvolvermos conceitos de organização novos e melhores, onde a persuasão prevaleça sobre o poder, razão sobre a emoção, a confiança sobre a suspeita, a esperança sobre o medo, a cooperação sobre a coerção e a liberdade sobre a tirania, nunca vamos por a ciência e a tecnologia a serviço da humanidade, quanto mais a serviço das outras criaturas e da Terra viva de que dependemos.
Em vez disso, com as grandes alavancas da ciência e da tecnologia, vamos continuar a destruir este mundo – socialmente, economicamente, politicamente e fisicamente. Para nós e para os nossos ancestrais, isso traria dor e vergonha amargas; mas para nossos netos, para seus filhos e para os filhos dos seus filhos, isso seria um legado de mau e de agonia além da compreensão. Para o universo, seria um acontecimento quase imperceptível, indigno de nota.
Há duas décadas, o escritor americano Norman Cousins resumiu nosso dilema ao escrever: “Houve uma grande escalada tecnológica sem a elevação correspondente das idéias. Elevamos nossa posição sem elevar nossa visão. Percorremos os céus com as máquinas do inferno – seja qual for o sucesso do homem em organizações intermediárias, ele deixou de fazer uma organização no todo. Suas energias foram gastas em projetos interinos. Ele transformou seu mundo numa entidade geográfica sem uma filosofia que o enobreça, sem plano que o conserve e sem uma organização que o mantenha.”
No livro Celebrations of Life, René Dubos, conceituado cientista e escritor, escreveu: “É uma sorte que as necessidades práticas exijam soluções locais para problemas globais ... O ideal para nosso planeta não parece ser um governo global, mas uma ordem mundial em que as unidades sociais mantenham sua identidade e ao mesmo tempo se influenciem reciprocamente por meio de ricas redes de comunicação.”
No livro The Third Wave, o futurista Alvin Toffler sugere que temos à frente uma “matriz de organizações com interesses comuns, densamente inter-relacionadas como os neurônios do cérebro”.
Como vamos descobrir essas novas idéias de comunidade, esses novos conceitos de organização? Não há melhor resposta do que as palavras de Camus: “As grandes idéias vêm ao mundo em silêncio, como as pombas. Se prestarmos atenção, vamos conseguir ouvir, em meio ao tumulto de impérios e nações, o leve farfalhar das asas, a suave agitação da vida e da esperança. Alguns vão dizer que esta esperança está numa nação; outros que está num homem. Eu acredito que ela é despertada, revivida e alimentada por milhões de indivíduos solitários que todos os dias negam as fronteiras e as mais cruas implicações da História com seus atos e seu trabalho. Cada um deles, sobre o alicerce do próprio sofrimento e da própria alegria, constrói para todos.”
Estamos num momento em que uma era de quatrocentos anos está estertorando em seu leito de morte e outra está lutando para nascer. Uma mudança de cultura, de ciência, de sociedade e de instituições muito maior e muito mais rápida do que o mundo já experimentou. À frente, há uma possibilidade, maior do que o mundo jamais sonhou, de regeneração da individualidade, da liberdade, da comunidade e da ética - e de harmonia com a natureza, com a inteligência divina e com o resto da humanidade.
Caórdicos somos, caórdicos vamos continuar sendo, caórdico é o mundo e caórdicas as instituições devem se tornar. Esse é um caminho para um futuro vivível nos séculos que virão, enquanto a sociedade evolui para uma diversidade e uma complexidade sempre maiores. Infelizmente, à frente há também a possibilidade do colapso institucional, de um enorme massacre social e da regressão àquela manifestação suprema dos conceitos de organização mecanicistas e newtonianos – a ditadura – que, por sua vez, teria de entrar em colapso à custa de um massacre ainda maior antes que as instituições caórdicas pudessem emergir. Pouco importa se essa regressão está nas mãos de organizações religiosas, corporativas ou governamentais.
Será que depois de tanto tempo de evolução, temos finalmente suficiente sabedoria, espírito e vontade para descobrir os conceitos e condições em que podem nascer as instituições caórdicas? Instituições com capacidade inerente à própria adaptação, ordem e aprendizado contínuo; instituições em harmonia com o espírito humano; instituições com capacidade para evoluir harmoniosamente umas com as outras, com as pessoas, com todas as outras coisas vivas e com a própria Terra, realizando o potencial mais alto de cada um de todos.
Eu não sei a resposta para essa pergunta mas, como disse no início, uma coisa eu sei: é tarde demais e as coisas estão ruins demais para o pessimismo. Em momentos como este, não é um fracasso deixar de realizar tudo o que podemos sonhar; fracasso está em deixar de sonhar tudo o que podemos realizar.
Temos de tentar! ”
Willis Harman, co-fundador da The World Business Academy
e ex-presidente do Institute of Noetic Sciences.
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